A história e a linha do tempo dos colecionáveis

O universo das figuras colecionáveis está repleto de personagens de filmes, jogos, literatura e cultura pop que são maravilhosamente detalhados, baseados em protótipos esculpidos a mão. Mas, o que muita gente não sabe, é como esse universo incrível surgiu. Para descobrir, precisamos fazer uma pequena viagem de volta ao passado, mais precisamente ao ano de 1822, quando o conceito de diorama foi criado.

Dioramas e figuras de chumbo

A história dos colecionáveis tem início ainda no século XIX, com a criação dos dioramas pelo pintor, cenógrafo, físico e inventor francês Louis Jacques Mandé Daguerre. Diferente das maquetes, os dioramas respeitavam fielmente as escalas, que podiam ser até em 1/1, e utilizavam inúmeros bonecos fielmente desenhados, para representar uma cena específica da história.

Sobre uma base em relevo e um fundo que amplia a ilusão de profundidade, através de uma pintura realista ou de uma fotografia, essas figuras de chumbo eram colocadas, compondo um cenário artístico que retratava momentos históricos, cenas de guerra e diversos acontecimentos importantes nos museus de história.

Devido ao seu realismo e encantamento que produziam nas pessoas, esses bonequinhos de chumbo foram deixando os cenários realistas em miniatura para se tornarem brinquedo de criança.

Toy “hominhos” soldiers

O problema dos bonequinhos dos dioramas é que eles eram feitos de chumbo, material extremamente tóxico para ser deixado nas mãos de uma criança. Desta forma, foram sendo deixados de lado, até que evoluíram para os Toy soldiers.

Feitos a partir de moldes de plástico (PVC), durável e barato, montados sobre uma base igualmente de plástico, esses clássicos brinquedos tornaram-se uma espécie de símbolo cultural entre crianças e adultos.

Na década de 50 os Toy soldiers fabricados pela Marx Toys, uma das maiores fábricas de brinquedos do mundo, tornaram-se verdadeiras obras de arte, com uma variedade gigantesca de personagens, que ia dos tradicionais soldadinhos, até cavalos, jangadas e esquimós.

Além dos toys soldiers mais comuns, a Marx criou uma série de outros colecionáveis ao longo dos anos 1950 e 1960, com base em programas de televisão e eventos históricos, como Roy Rogers Rodeo Ranch, Davy Crockett no Alamo, Battle of the Blue and Grey, Robin Hood, Ben Hur, Forte Apache e muitos outros.

Barbie

Em março de 1959 a boneca Barbie foi lançada pela Mattel e você deve estar se perguntando o que é que ela tem a ver com a história dos action figures. Pois bem. No início dos anos 60, o mercado de brinquedos parecia estar se adaptando às meninas e os brinquedos para meninos atravessavam uma época de estagnação criativa.

Com o surgimento da Barbie, que continha articulações nos braços, pernas e cabeça e ainda dispunha de uma série de acessórios e roupinhas, as marcas se viram induzidas a criar figuras do mesmo tipo para os meninos. Em vez de uma boneca, no entanto, a Hasbro, concorrente direta da Mattel, desenvolveu o que chamou de "homem de combate móvel", uma estatueta construída sobre a compreensão cultural da guerra que se iniciava no continente asiático.

Os G. I. Joe

Enquanto caminhava por uma loja de arte, Donald Levine, Vice-Presidente e Diretor de Marketing e Desenvolvimento da Hasbro, avistou um daqueles manequins de madeira articulados (utilizados na criação de desenhos) e foi atingido em cheio pela ideia de desenvolver em sua empresa um boneco igualmente articulado, de quase 30 cm, com 21 partes móveis, da cabeça aos pés.

Até então, os soldados de plástico eram os brinquedos favoritos das crianças e transformá-los em bonecos articulados, chamando-os de G.I. Joe foi a aposta mais certeira já feita pela Hasbro.

Quando a figura chegou ao mercado em 1964 foi um grande sucesso. De início, eram quatro figuras em caixas diferentes, que vinham com fardas básicas, botas, boné e uma tag presa ao pescoço. Cada figura representava um ramo das forças armadas, o action soldier, o action sailor, o action pilote e o action marine. Dai surgiu, pela primeira vez, o termo action figure, para abranger todos esses bonecos articulados.

Essa primeira linha dos G.I. Joe era na escala 1/6 (cerca de 30 cm) e contava com uma cicatriz na bochecha direita de cada boneco. A cicatriz se tornou uma marca registrada entre as crianças, mas seu real propósito era impedir que outras empresas copiassem o molde dos bonecos.

O nome G. I. Joe veio de um filme de guerra dos anos 40 chamado The Story of G. I. Joe, que por sua vez veio de uma sigla que era carimbada em todas as caixas com mercadorias, que eram do governo (Government Issue - assunto do governo).

Na época da segunda Guerra, para demostrar que o "soldado" era como um item do governo (sua vida e tudo mais pertence ao país), os sargentos passaram a chamar seus subordinados de G. I. Joe. Joe é o nosso José ou simplesmente Zé, que é o apelido dado a alguém quando não se sabe realmente o seu verdadeiro nome. Juntando os dois, temos "soldado Zé" ou simplesmente "o soldado".

Com o início da Guerra do Vietnã, em 1959, os G.I. Joe renderam quase US$ 17 milhões à Hasbro, sendo responsáveis por quase 66 % dos lucros da empresa durante dois anos. Mas, quando a popularidade da Guerra do Vietnã entrou em queda livre, as vendas dos G.I. Joe foram com ela.

Captain Action

Em 1966, a Ideal Toy Corporation lançou a linha de brinquedos Captain Action. As figuras vinham com um traje completo composto por chapéu, espada e arma e poderiam ser transformadas em diversos outros super-heróis populares como Homem-Aranha, Batman, Superman com o auxílio de outros acessórios que eram vendidos separadamente. Até mesmo as cabeças podiam ser retiradas e transferidas de um corpo para outro.

No auge da popularidade do Captain Action, a Ideal Toy lançou uma linha companheira chamada Super Queens de 30 cm, criada na esperança de captar um pouco do público feminino. Eram apenas quatro heroínas Batgirl, Mera, Supergirl e Mulher Maravilha, que continham capa, máscara ou coroa, luvas e botas e, ao contrário das figuras do Capitão Ação, não possuíam trajes separados para fazer a troca dos personagens.

Poucos anos após o seu lançamento, as vendas das linhas Captain Action e Super Queens caíram drasticamente, até que foram canceladas. Por este motivo, esses brinquedos são considerados como uns dos mais raros bonecos de ação da história. Uma figura Super Queens, encaixotada na condição de nível de colecionador pode facilmente custar cerca de US$ 10.000.

Falcon, o herói de verdade

Nos anos 70, uma crise se instalou nos EUA, devido à falta de petróleo, desta maneira, a Hasbro se viu obrigada a ceder a marca G. I. Joe para outros países e vimos, finalmente, chegarem ao Brasil os bonecos de ação chamados de Falcon.

Lançado pela Estrela, o boneco atingiu a marca de mais de 1 milhão de unidades vendidas apenas no seu ano de lançamento. Naquela época, a fabricante de brinquedos, tinha o habito de tropicalizar o nome de todos os brinquedos vindos de fora. Desta maneira, deu aos G. I. Joe o nome de Falcon, uma homenagem ao jogador Falcão, um dos maiores nomes do futebol brasileiro e mundial nas décadas de 70 e 80.

Inspirados nas versões europeias, os Falcon possuíam, corpo musculoso, barba e cabelo flocados, além do formato kung-fu da mão. Eles também eram menos militaristas e ao invés dos tradicionais soldados, eram retratados como personagens aventureiros.

Posteriormente chegaram às prateleiras outras versões do primeiro super-herói a valorizar as habilidades humanas, como Missão Impossível (1978), Comandos no Mar (1978), a série Olhos de Águia (1979), Condor (1980) e Torak (1980), além de veículos como helicópteros, tanques e jeeps.

Mego e Microman

No início dos anos 1970 a Mego começou a produzir action figures licenciados dos super-heróis dos quadrinhos da Marvel e DC Comics. Em 1974, começaram a fabricação de um clássico Japonês, o Microman, que era um brinquedo cyborg de apenas 9,5 cm de altura, com peças intercambiáveis. Seu tamanho e pontos de articulação, que permitiam movimentar pernas e braços para todos os lados, revolucionaram o mercado de bonecos de ação, inspirando figuras de ação menores, bem como robôs de brinquedo transformáveis.

Anos depois, a Mego se recusou a produzir os brinquedos de uma certa trilogia de filmes de ficção científica sobre Jedis e guerras nas estrelas. Este foi o fim da Mego. Hoje a empresa se dedica a venda de seus antigos brinquedos, altamente valorizados entre os colecionadores de todo o mundo.

O efeito Star Wars

Com o lançamento dos filmes da trilogia Star Wars, nos anos 70, o mundo só queria saber de aventuras intergalácticas, espaçonaves e alienígenas. De 1976 a 1985, a Kenner adquiriu a licença para produzir os brinquedos Star e popularizou as figuras de 3,75 polegadas, que se tornaram um padrão da indústria, que continua a dominar o mercado de figuras de ação.

Em um período de sete anos, a Kenner vendeu mais de 300 milhões de action figures da saga Star Wars, caracterizando-os como um dos brinquedos mais vendidos de todos os tempos.

Os action figures de Star War ainda deram o pontapé inicial em uma prática comercial que deu muito certo e é usada até hoje: com o lançamento dos filmes é lançada uma série de colecionáveis, de acordo com a temática do longa.

Helshin Cyborg

Em 1972, a Takara fez um spin-off da linha G. I. Joe e criou uma linha de bonecos denominada Helshin Cyborg. O corpo do cyborg era feito de plástico transparente, que permitia a visualização dos implantes cibernéticos e do motor atômico do robô.

Além disso, era possível conectar os pequenos robôs a outros componentes, como naves, helicópteros, motos e carros, transformando-os em uma nova máquina, abrindo caminho para os Transformers.

Objetos do dia a dia que se transformavam em bonecos

Em parceria com a Takara, a Hasbro lançou uma linha que colocou a indústria de bonecos em outro nível. Era uma série de robôs alienígenas que travavam uma guerra secreta na Terra, disfarçados de carros, os Transformers.

Com inúmeras articulações e pontos retráteis, os robôs podiam se transformam em qualquer coisa. De início eram câmeras fotográficas e pistolas, com os chamados MicroChange, depois eram carros e caminhões, com os oficiais Transformers.

Comandos em ação

Ainda refletindo os efeitos do embargo do petróleo, que elevou os preços do plástico, a Hasbro se viu obrigada a diminuir o tamanho dos bonecos de ação. Surgiu então, em 1982 a versão menor dos G.I. Joe, conhecidos no Brasil como Comandos em Ação.

Além de diminuírem de tamanho, passando para a escala 1/18 (10 cm), os personagens passaram a ter roupas diretamente esculpidas e pintadas no corpo e cada figura se tornou um personagem específico.

As embalagens tinham artes conceituais e filecards (cartões de arquivo) diferentes para cada personagem, definindo codinomes, especialidades, habilidades e detalhes biográficos de cada herói ou vilão, incluindo os personagens genéricos (ou “troop-builders”), tais como os Cobra Troopers e os Tele Vipers, por exemplo.

Paralelamente, esse universo de personagens passou a aparecer em uma série de histórias em quadrinhos própria, numa parceria entre a Marvel Comics e a Hasbro, e em um desenho animado, produzido entre 1983 e 1987 pela Sunbow.

O Spawn de Todd McFarlane

Nos idos de 1997, Todd McFarlane mudou completamente o conceito dos action figures. Todd era ilustrador da Image Comics, empresa que fundou juntamente com outros sete ilustradores e roteiristas saídos da Marvel Comics.

Em 1992 criou o personagem Spawn que, em pouco tempo, conquistou milhares de fãs ao redor do mundo. O personagem foi para o cinema e começou a ser fabricado como um brinquedo na Todd Toys, empresa criada por Todd McFarlane. Porém, após problemas com a Mattel, por acharem que Todd Toy se trataria de um "irmão menor" da Barbie, o nome da empresa foi mudado.

A mudança do nome para McFarlane Toys foi uma espécie de divisor de águas no universo dos colecionáveis. As figuras começaram a ser fabricadas com uma riqueza de detalhes impressionantes, amados pelas crianças, que as tinham como brinquedo, e pelos adultos, que as tinham como um objeto de desejo colecionável.

A empresa cresceu com o passar dos anos e hoje detém a licença de inúmeros outros personagens como The Walking Dead, Assassin’s Creed, Naruto, a Liga NFL de futebol americano e a série Movie Maniacs, que inclui vários personagens de filmes de horror, como Jason Voorhees, de Sexta Feira 13, e Freddy Krueger, entre outros.

Anos 2000

A partir da década de 2000 houve uma transição e os action figures passaram a representar, quase que exclusivamente, filmes populares, quadrinhos, músicos, atletas e outros ícones da cultura pop.

Algumas das peças possuem valor acessível, indicadas para colecionadores iniciantes, como as vendidas pela NECA, Funko, Diamond e Mezco. Porém outras, devido à sua impressionante riqueza de detalhes, possuem maior valor agregado, como os colecionáveis vendidos pela Enterbay, Hot Toys, Sideshow e Iron Studios.

Mas, apesar de todas essas mudanças sofridas ao longo dos últimos 50 anos, as figuras colecionáveis ainda continuam com o sentimento inicial, onde crianças podem sonhar com os heróis que serão no futuro e adultos podem fazer de conta que já o são.

E você, teve algum desses colecionáveis na infância? Até a próxima!